Chega. Chega de intromissões indevidas na alma da docência. Chega de mãos leigas tentando moldar o que não conhecem. Chega de conselhos vazios de quem jamais sentiu o peso de olhar nos olhos de trinta alunos e, ainda assim, acender neles uma chama. Chega de palpiteiros de plantão, de engenheiros de gabinetes desenhando projetos escolares […]
Chega.
Chega de intromissões indevidas na alma da docência. Chega de mãos leigas tentando moldar o que não conhecem. Chega de conselhos vazios de quem jamais sentiu o peso de olhar nos olhos de trinta alunos e, ainda assim, acender neles uma chama. Chega de palpiteiros de plantão, de engenheiros de gabinetes desenhando projetos escolares sem nunca terem ouvido o som de uma campainha anunciando o recreio. Chega de palestrantes motivacionais ensinando ao professor a ser resiliente, como se a docência não fosse, por si só, o ato mais resiliente que existe.
Nós, professores, não invadimos a medicina para dizer como operar. Não invadimos a engenhar

ia para sugerir como erguer um edifício. Não palpitamos sobre a agricultura, a advocacia ou a arquitetura. Respeitamos cada área em sua complexidade.
É chegada a hora de exigir o mesmo respeito.
Educar não é mero ato técnico. Educar é carregar vidas, sonhos e fragilidades nas mãos. É compreender o que Edgar Morin chama de “o conhecimento do conhecimento” — a consciência de que a educação é complexa, in
certa, humana. Morin nos lembra que “a educação deve ensinar a enfrentar a incerteza”, e isso não se aprende num manual, nem se improvisa num palanque. Só quem vive a sala de aula entende que educar é ato de criação e coragem diárias.
Chega de receitas prontas. Chega de opiniões fáceis. Chega de julgamentos vindos de quem nunca soube o que é formar um ser humano.
A escola não é palco para experimentos irresponsáveis. A escola é o útero onde se gesta o futuro.
E nós, professores, merecemos respeito. Não pelo título, mas pela missão.
Chega.