Uma Breve Reflexão Sobre a Formação de Professores: 10 Aspectos a Serem Considerados

É cada vez mais preocupante a realidade da educação brasileira. Passada uma década da criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), 71% das escolas do ensino fundamental – anos iniciais, ainda não conseguiram chegar ao padrão mínimo de qualidade, definido pelo MEC. Existe, atualmente, um volume  considerável de pesquisa demonstrando que a qualidade dos professores  e do ensino é o fator mais importante para explicar os resultados dos alunos. E a qualidade dos professores passa, sem dúvida, pela qualidade da sua formação. O ex- ministro da educação, Henrique Paim, considerou a formação como “o principal gargalo que nós temos hoje para avançar na qualidade da educação”.

De modo geral, os programas de formação inicial estão ultrapassados. Os alunos das licenciaturas não aprendem corretamente aquilo que vão ensinar, passam muito tempo em discussões ideológicas e teorias abstratas e são pouco expostos às técnicas e práticas. Mais de 80% dos programas são voltados à teoria, enquanto que nos países desenvolvidos, o professor tem metade de sua formação voltada para a reflexão, exercício e simulação da prática.

Assim, há quase uma concordância unânime de que as universidades não estão conseguindo formar professores preparados para atuar na escola da atualidade. Aqueles que atuam na formação de professores, muitas vezes, dão aulas similares às que tiveram e repetem algumas metodologias ultrapassadas de sua própria formação. Somado a isso, temos o frágil nível educacional dos alunos ingressantes nos cursos de licenciatura, especialmente Pedagogia. Em geral, são alunos com baixo desempenho no vestibular ou no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Segundo reportagem publicada no Jornal O Globo (15/10/2010) os ingressantes nos cursos de pedagogia  apresentam um perfil específico: baixo nível socioeconômico e pais com escolaridade baixa. É importante lembrar que essa é uma preocupação de quase uma década e vimos que pouca coisa mudou.

Quanto à formação continuada, não há como negar os avanços dos últimos anos na ampliação da oferta de programas, organizados em forma de congressos, seminários, cursos, oficinas e estudos dirigidos. Há grandes movimentos nesse sentido por todo o Brasil. Basta olhar os projetos, ações estratégicas e programas desenvolvidos pelo MEC, pelas instituições de educação superior, mantenedoras de escolas privadas, grupos educacionais, secretarias estaduais e municipais de educação, entre outros órgãos. Todos, de certa forma, estão debruçados pensando em soluções para superar o grave problema da formação dos nossos professores.

No entanto, existem muitas dúvidas quanto à eficácia da maioria desses programas. Investe-se muito dinheiro e tempo, mas há dúvida se os investimentos estão indo para o lugar certo e se o modelo de formação está chegando na raiz do problema. Será que os programas hoje ofertados estão conseguindo melhorar o desempenho dos professores em sala de aula e, consequentemente, aumentar o nível de aprendizagem dos alunos? Será que os projetos de formação e a forma como os organizamos e ofertamos realmente, estão alinhados com as reais necessidades dos professores? Será que estamos conseguindo motivar e envolver os professores nesses programas?

Tentando responder a essas questões, apresento algumas questões que tenho identificado em meus estudos e pesquisas e que, por si só, podem explicar a necessidade que temos de organizar e ofertar bons programas de educação inicial e continuada. Acredito que elas demonstram a necessidade de um investimento considerável na formação dos professores, como também podem servir como demandas ou fontes de inspiração para elaboração de programas e projetos que atendam a esse fim.

  1. O que ensinar e como ensinar: Com as mudanças céleres da contemporaneidade, há um aumento considerável da insegurança e angústia dos professores sobre o que ensinar e como ensinar. Essas mudanças estão provocando, de forma inquestionável, a alteração de comportamentos, aprendizados e relacionamentos. As instituições e os professores, muitas vezes, não sabem como reagir diante desta realidade.
  2. Introdução de novos conceitos educacionais: Nesse contexto, cada vez mais surgem novos conceitos educacionais, com significados, muitas vezes, imprecisos, tais como: habilidades, competências, pensamento divergente, contextualização, metacognição, entre outros. Essas questões precisam ser melhor discutidas e compreendidas pelos professores.
  3. Do pensar e agir individual para o pensar e agir coletivo: Embora os professores tenham sido, ou ainda sejam, formados para trabalhar individualmente, há clara necessidade da mudança para um trabalho coletivo,cooperativo, interdisciplinar, desenvolvido em equipes, levando ao pensar coletivo.
  4. Novo modelo de relação professor/aluno: Na contemporaneidade, os professores são convidados a construir novas normas sociais de relacionamento com seus alunos. Isso deve ser feito de forma não autocrática e impositiva, mas coletiva, incentivando e promovendo o envolvimento e a participação dos alunos. Os estudantes são mais ativos, participativos, migratórios e públicos. Suas interações, vistas até pouco tempo atrás por muitos professores como indisciplina, passam a ser fundamentais para o desenvolvimento da racionalidade e dos conteúdos metodológicos e atitudinais.
  5. Do ensino para a aprendizagem: Também há grandes movimentos para que o ensino migre do tradicional, totalmente expositivo, para um ensino em que o aluno ocupe o centro da atenção das propostas pedagógicas eque, de fato, o ensino seja direcionado à sua aprendizagem efetiva. Enfim, há pressão para que a atenção das propostas deixe de ser centrada no professor e passe a ser centrada no estudante para que este construa aprendizagens significativas para a sua vida.
  6. Do professor transmissor de conhecimentos para o mediador de oportunidades educativas: O professor precisa assumir novo e importante papel, o de mediador dos processos de ensino e aprendizagem, promovendo momentos de discussão coletiva para que a aprendizagem, de fato, ocorra. Assim, o professor mediador, como nos lembra a Professora Ana M. P. Carvalho, “deve assumir a responsabilidade de refletir sobre toda produção do conhecimento do aluno, favorecendo a iniciativa e a curiosidade, ao perguntar e responder, e construindo novos saberes com os alunos. O professor, no papel de mediador, ajuda o aluno a assumir maior protagonismo no processo de sua aprendizagem, desenvolvendo sua identidade, sua autonomia de pensamento, tomando sua, próprias decisões e aprendendo a estudar sozinho.
  7. Da avaliação classificatória para a avaliação reflexiva da aprendizagem. Exige-se, hoje, dos professores uma atenção às novas formas de avaliação de aprendizagem, que devem ser mediadoras dos processos de ensino e aprendizagem, servindo para encorajar e reorganizar o saber. O foco da prática pedagógica, e, consequentemente,  da avaliação, migra do modelo armazenar, decorar e repetir, que compreendem habilidades lineares; para o modelo de problematizar, teorizar e ser capaz de resolver problemas complexos.
  8. O Projeto Político Pedagógico como referencial: O professor é convidado a participar ativamente da construção do projeto pedagógico da escola, exigindo assim, aparato conceitual condizente com a responsabilidade que lhe é conferida. Os projetos pedagógicos, em especial, a parte do perfil de egresso almejado pelas instituições, são fundamentais para definir a prática pedagógica. É nesse referencial que o professor precisa se apoiar.
  9. Nova base de conhecimento para o Professor: Atualmente, há uma ampliação das exigências relativas ao conhecimento esperado por um professor. Segundo Shulman, o professor precisa, no mínimo, desenvolver sete categorias da base de conhecimento: conhecimento do conteúdo, conhecimento pedagógico (conhecimento didático geral), conhecimento do currículo, conhecimento dos alunos, conhecimento da aprendizagem, conhecimento dos contextos educativos; e conhecimento didático do conteúdo.
  10. Resgate da identidade profissional do professor: Por fim, é necessário o resgate da verdadeira identidade profissional do professor. É preciso resgatar, na profissão docente, a geração do conhecimento e a valorização dos aspectos intelectuais, talvez um pouco esquecidos. A “vocação para o ensinar” precisa andar junto com o “preparo para o ensinar”. Assim, na discussão da identidade do professor, um processo longo e complexo, é preciso resgatar, entre outros, o principal papel do professor, que é de caráter intelectual e inerente a sua formação acadêmica. O professor precisa ser o desenvolvedor da ciência, a partir do desenvolvimento da inteligência, do entendimento, do raciocínio e do conhecimento. Esse resgate, com certeza, contribui para a percepção de autoeficácia, motivação, compromisso, além de contribuir para elevação dos níveis de autoestima e autoconfiança dos professores tão sofríveis nos últimos tempos.

Desse modo, não há dúvida de que a atividade docente tenha se tornado muito mais complexa e de que essa complexidade tenha aumentado os níveis de insegurança e, talvez até, na mesma proporção diminuído os níveis de motivação e autoconfiança dos professores.

Em tempos em que a compreensão do mundo e da vida já não oferecem mais verdades plenas e exigem “educação para toda a vida”, chegou o tempo de “gastarmos tempo” pensando, planejando, organizando e oferecendo programas de formação inicial e continuada que realmente atendam às verdadeiras necessidades das escolas e dos professores. Esses programas precisam desenvolver atividades com o objetivo de levar o professor a discutir novos conceitos, adotar novos comportamentos, desenvolver novas práticas para que consigam diminuir, ainda que em parte, seus níveis de incerteza; ampliar seus níveis de segurança; melhorar seus níveis de autoestima e autoconfiança e conquistar maior motivação na realização do seu trabalho.

Enfim, a formação do professor terá que ser desenvolvida com muita qualidade, com elevado empenho e com grande exigência a fim de poder cumprir a sua missão de intelectual, mentor, mediador, educador, transformador social e construtor de cidadania. Assim, acredito que estaremos dando passos largos e significativos para a melhoria da educação que apesar dos pesares, continua a ser apaixonante.

 

REFERÊNCIAS

Shulman, L. S. El saber y entender de la profesión docente. Estúdios Públicos, n.99, 2005, Santiago-Chile, 2005.

Carvalho, A. M. P. Formação continuada de professores: uma releitura das áreas do cotidiano, São Paulo, SP. Cengage, 2017.