O Resgate do Ser Professor

Há muitos anos venho me inquietando com os baixos resultados que a educação pública e privada do Brasil tem conseguido gerar. Não precisamos nem utilizar os indicadores oficiais para avaliar nossa educação. Basta assistir um telejornal, conversar um pouco mais de 15 minutos com um universitário, ou mesmo tentar ler um texto escrito por um egresso do ensino médio e, muitas vezes, pasmem, de um universitário. É lastimável o que identificamos. Alunos leem sem compreender o que leem. Redigem textos sem a mínima lógica e são alheios a temas da cultura geral.

Quando analisamos e tentamos interpretar as causas desse desastre, sempre vem um forte apelo de que é preciso investir mais na educação. Mais verba, mais dinheiro, mais orçamento, enfim, investir, investir e investir por meio de mais recursos financeiros. Já é praticamente consenso de que a qualidade do ensino só vai realmente melhorar em nosso país se despejarmos mais dinheiro no sistema

Realmente, não há dúvida de que precisamos de grande aporte financeiro para tirar a educação do estado lastimável que se encontra. Mas, minha preocupação reside aonde e como poderemos investir tais recursos. Temos muitos exemplos no Brasil onde houve aumento de investimentos em determinado sistema educacional e não se identificaram melhorias no ensino. O assunto é delicado e exige muita reflexão e estudo.

INVESTIR SEM TRANSFORMAR NÃO MUDA A REALIDADE

 

O que tenho como convicção é que nenhum dinheiro fará milagres se não tivermos um projeto delineado para resgatar o professor. Esse profissional que é o protagonista perdeu seu script, está sem roteiro, sem identidade, sem rumo.  O que quero dizer, e corroborado por tantos pesquisadores e pensadores da educação, é que o professor sabe muito pouco o que fazer numa sala de aula no século XXI.

Foi-se o tempo em que o professor era o “sabe-tudo”, o líder, o profissional respeitado e admirado.  Esse, com autoridade e sabedoria,  parecia ter a força e as condições  para conduzir o processo de formação de uma sociedade. O professor que hoje atua em nossas escolas é, na maioria dos casos, um profissional que demonstra fraqueza, pouca vaidade.  Baixa cultura geral e com uma formação bastante limitada para lidar com as exigências do mundo contemporâneo. No entanto, a questão mais grave que considero quando analiso a situação do professor na atualidade, é algo que ele perdeu de forma vertiginosa nas últimas décadas. Algo que os donos do poder conseguiram arrancar, roubar de cada professor: sua autoestima. Sem o resgate dela considero praticamente impossível promovermos a tão sonhada revolução na educação.

RESGATAR A AUTOESTIMA E DESENVOLVER UM NOVO PERFIL

 

Em pesquisas que realizei, pude constatar que, enquanto a sociedade ainda deposita um grau considerável de confiança no professor, ele próprio não deposita. Vê a sua profissão beirando à marginalidade. Os professores costumam fazer poucas reflexões sobre o seu desempenho em si. Apontam constantemente para o sistema, para os pais, para os gestores, para a sociedade como culpados pelo mal estar que ronda a categoria.  E quando você procura obter justificativas para tal acusação, logo se vê que o problema recai na formação e no desenvolvimento pessoal do profissional professor. Me atrevo a citar os principais problemas que no meu ponto de vista afetam hoje nossos professores da educação básica:Insegurança com relação ao que sabem e o que precisam saber. Os professores todos os dias são desafiados por seus alunos, dos mais diferentes anos e graus de ensino e disciplinas a dominarem uma gama de conteúdos, ou mesmo de informações que eles não sabem. Não sabem porque não estudaram e porque, muitas vezes, não querem estudar. Não se sentem motivados a preparar uma “boa aula”. Quando assim fazem, percebem que o resultado ainda é baixo perto das expectativas que lhes são atribuídas.

  • Na sociedade do conhecimento é complexo lidar com informações e o processor lida com elas todos os dias. A expectativa culturamente criada e ainda valorizada é que o professor precisa saber. Precisa dominar conteúdos e ter a informação na hora que o aluno ou que o assunto assim exigir. Culturalmente fomos educados e esperamos que o professor saiba. Caso não tenha domínio de tal conteúdo e fique sem a resposta para o aluno, o risco de cair em descrédito é muito grande. Como proteção, o professor lidera sua aula, sua disciplina com maestria, não permitindo ou permitindo muito pouco a interação dos seus alunos.
  • Formação deficiente e inadequada para atender às exigências de uma sociedade calcada no conhecimento e na informação. Este item pode justificar, em partes, o problema anteriormente mencionado. Infelizmente a formação dos professores em nossas universidades é muito ruim. Ainda formamos especialistas para ministrarem aulas nas suas disciplinas totalmente desfocadas da realidade. Compartimentamos e ensino e tratamos assim a educação. Como se a vida, ou os problemas da vida surgissem e fossem resolvidos a partir de determinada área de conhecimento. Falamos em nossos discursos que é preciso que o professor contextualize em suas aulas. Mas a pergunta que se faz é, como? Como contextualizar se o professor não domina o contexto? Como contextualizar se o preparo universitário o faz para o específico e não para o geral?
  • O professor Phillipe Perrenoud aborda bem essa questão, quando diz que o professor vive angustiado em função do medo que assola as salas de aula. Um dos primeiros medos que observamos é o fato de ter que ministrar aulas para cidadãos que se apresentam, muitas vezes, como verdadeiros marginais ou em processos de marginalização. Nesse caso, o professor pouco se atreve a usar sua autoridade. Muitas vezes, torna-se refém de determinados grupos de alunos, para garantir sua integridade física e moral. Principalmente por saber que as escolas não contam com um sistema que os proteja. Medo de alunos que não conseguem separar os limites da relação profissional. Não observando o respeito e a autoridade necessária para se garantir a ordem e assim realizar um bom trabalho. Medo dos seus limites, da exposição que sofre no desenvolvimento da sua profissão. Muitas vezes por não ter condições suficientes para lidar com problemas de ordem cognitiva ou emocional. Medo de enfrentar grupos ou alunos mais bem preparados que ele em determinado conteúdo. Medo de sancionar algumas condutas, podendo assumir riscos de cometer pequenos ou grandes erros judiciais. Enfim embora pouco se fale sobre o medo, é relevante tratar o assunto como prioridade.

 

Enfim, para mudar esses cenários adversos, é preciso que toda a sociedade comece a refletir profundamente que a educação é fundamental para uma sociedade desenvolvida. No entanto, a educação não pode ser terceirizada para uma categoria, os professores. Sozinhos e sem apoio não vão poder formar as futuras gerações que possam responder pelos destinos da nossa sociedade e da nossa nação.