Tecnologia na Escola: A Visão dos Pais

tecnologia na educação

Usar as novas tecnologias na educação é um tema cada dia mais presente no meio educacional. Para adaptar as instituições a essa nova realidade somam-se esforços de toda ordem, entre eles o de dotar as escolas públicas e privadas do Brasil com rede de internet sem fio. Por outro lado, o número de computadores nas escolas públicas cresceu seis vezes nos últimos três anos. Atualmente, mais de 40% das escolas públicas têm computador em sala de aula e 84% têm rede WI-FI. Por sua vez, na rede privada, mais de 70% das salas têm computador e quase 100% têm rede WI-FI. Praticamente 100% dos professores, tanto da rede privada como da rede pública são usuários da internet e 75% usam o computador e internet em suas aulas quando possível, principalmente como apoio ou para realização de trabalhos sobre temas específicos.

No entanto, existem ainda muitas limitações a serem vencidas neste campo, como uma certa resistência de alguns docentes, e principalmente falta de estrutura de apoio em algumas escolas. Assim, a grande maioria das escolas, públicas e privadas, não libera a rede para seus alunos, pois percebe-se que muitos estudantes têm dificuldade em se controlar no uso adequado dessa tecnologias . Essa restrição de uso apareceu em pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) que revelou que 58% das escolas privadas e 62% das escolas públicas não permitem que seus alunos acessem a internet pela rede WI-FI.

 

O QUE PENSAM OS PAIS

Com essa informação em mãos fui ouvir a opinião de pais que têm alunos matriculados na educação básica para identificar suas opiniões a respeito. Inicialmente acreditava que os pais iriam contestar as decisões e medidas das escolas em proibir o acesso dos alunos à rede. O que obtive de resposta, diferente do que eu supunha, é que os pais na sua maioria apoiam as escolas. E qual a razão que leva os pais, num mundo dominado pela tecnologia, pela internet e pelo anseio incessante de conexão, de desejar que seus filhos não tenham acesso à internet ou tenham acesso limitado, durante o período em que estão na escola?

A resposta veio de imediato. Os pais têm hoje em casa pouco controle sobre o uso da internet pelos seus filhos. Precisam estar vigiando constantemente, estabelecendo horários, e confessam que, muitas vezes, sabem que são ludibriados e que os filhos ficam muito mais conectados do que o combinado ou o consentido. Então, esperam da escola o que às vezes não conseguem fazer em casa, que é o limitar o acesso à internet.

Aprofundando mais a discussão com os pais, verifiquei que isso não significa que eles não valorizam aulas mais dinâmicas e o uso de novas tecnologias no processo de ensino e aprendizagem. O que os pais receiam, principalmente, é a falta de controle que a escola possa ter com a liberação da internet para os alunos. Como eles já têm dificuldades de lidar com o problema com dois ou três filhos em casa, eles imaginam como deve ser difícil um professor lidar com 30 a 40 crianças ao mesmo tempo. Além disso, em função dos seus filhos estarem online quase todo o tempo, veem reduzir cada vez mais as suas relações e interações pessoais, o que é um fator bem preocupante para eles. Sendo assim, acreditam que a escola deve incentivar os alunos a ter uma convivência mais real e menos virtual com o mundo. Acreditam assim os pais que a escola deve ser mais um espaço de interação pessoal, de troca de informações com o professor, de realização de trabalhos manuais, de aulas em laboratórios de ciências, de realização de atividades esportivas e até de aprender a ouvir os ensinamentos do professor, em que se aprende a ouvir o outro.

 

NOVAS TECNOLOGIAS: CONFLITO DOS MODELOS EDUCACIONAIS

Por sua vez, quando questionados sobre o uso de novas tecnologias no processo de ensino e aprendizagem, confessam certa preocupação com a limitação de acesso à rede WI-FI, mas acreditam que o acesso à internet pode ser mais adequado na realização das atividades fora do espaço escolar. Mesmo considerando que as aulas seriam mais atrativas se todos estivessem conectados, a falta de controle da escola sobre a interação dos alunos com o mundo virtual, parece ser mais preocupante do que o uso dessas tecnologias para despertar o interesse e a motivação dos alunos. Portanto, tanto por parte dos professores atuantes no modelo educacional ainda vigente, quanto por parte dos pais, percebe-se o desconforto com as novas tecnologias. Por um lado, a cultura do controle total. Do outro, o controle que foge das mãos. Isso apenas demonstra que nos falta consolidar um novo modelo educacional, tanto nas famílias, como nas escolas, no qual as novas tecnologias sejam percebidas como a grande oportunidade de nos comunicarmos, dialogarmos e buscar referenciais para embasar nossos argumentos. Será que o problema está nas novas tecnologias  ou será que o problema está em uma desestruturação social de valores que precisam ser repensados e, a falta desses, levam os jovens a tantas fugas, como por exemplo o uso descontrolado das novas tecnologias?

 

ENTRE OS MODELOS EDUCACIONAIS TRADICIONAIS E CONTEMPORÂNEOS: AS NOVAS TECNOLOGIAS COMO MEIOS FORMATIVOS

Não há dúvidas que posturas assim, tanto da escola, como dos pais, inibem inovações, principalmente com o uso de dispositivos móveis nas práticas pedagógicas. Também não há dúvidas que teremos que achar a curto prazo soluções mais inteligentes e efetivas para essas questões. Sou obrigado a concordar que a maioria das escolas, principalmente as públicas, não têm uma infraestrutura robusta para permitir que todos os seus estudantes conectem seus equipamentos ou da instituição e realizem download de conteúdos. Também sou obrigado a concordar com os pais que as escolas e os professores hoje não têm condições, na sua maioria, de exercer um efetivo acompanhamento sobre o uso desses equipamentos. Mas, também tenho certeza de que precisamos urgentemente achar o caminho para amenizar esses problemas. Os alunos demonstram não ver mais muito sentido na escola tradicional e o uso adequado das novas tecnologias pode ser um dos caminhos para que voltemos a despertar a atratividade e interesse deles pela escola, pelo estudo e pela aprendizagem. Mas, é importante que as famílias e as escolas ajudem a desenvolver a autonomia desse estudante, para que ele também aprenda a usar e dominar a tecnologia, e não ser dominado por ela. Assim, superadas as resistências de alguns docentes, a falta de estrutura de algumas escolas, o não saber estabelecer limites por algumas famílias e o não saber se controlar por parte de alguns estudantes, poderemos desenvolver um novo modelo educacional que não necessite mais de tanto controle, e talvez então as novas tecnologias sejam percebidas como uma grande aliada na formação das novas gerações.

 

 

 

 

Referências:

http://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,no-brasil-73-dos-professores-usam-internet-em-sala-de-aula,10000079005

 

MORAN, José Manuel, MASETTO, Marcos; BEHRENS, Marilda. Novas tecnologias e mediação pedagógica. 21ª edição. Campinas, SP: Papirus, 2013.