Chega De Homenagens Ao Professor

 

 

Com a Era do Conhecimento, que se manifesta de forma mais evidente no final do século 20, a educação passou a ser o principal fator de desenvolvimento econômico e social de um país. Nesse contexto, ao abordar a questão educacional no Brasil, nos vem a reflexão: será que a escola está cumprindo seu papel? Ao referir-me ao problema da escola, quero aqui trazer em evidência aquele um dos principais  protagonistas educacionais: o professor.

Nunca se ouviu falar tanto da importância desse profissional.  Como ele está inserido no contexto social? Qual é a importância deste profissional no contexto atual? A sociedade lhe dá a devida importância, visto ser ele o profissional que forma todos os demais profissionais? O que é possível fazer a favor dele?

Instigado por essas questões, com as quais trabalho, levanto o tema principal da “profissão professor”. Sobre esta, há forte interferência de aspectos relevantes, como  o mal-estar com a carreira, o mal-estar relacionado à complexidade da função docente e o mal-estar relacionado à formação do profissional professor.

O mal-estar instalado entre os professores, no que tange à carreira, é evidente e está explicitado pela sensação de impotência, frustração e desânimo. Uma pesquisa da Fundação Victor Civita, em 2009, aponta que, no mundo inteiro, o prestígio social do professor está diminuindo. Em pesquisa desenvolvida por mim, constatei que, entre os professores, há sentimentos de revolta, indignação e até vergonha em relação à profissão. O professor somente é valorizado em discursos políticos. No entanto, na prática, o reconhecimento não ocorre e boa parte dos profissionais está desiludida com a profissão.

Uma das razões da sensação de impotência está na complexidade da função docente. Com a revolução tecnológica dos últimos vinte anos, sobretudo a internet, a informação tornou-se acessível a todos. Essa situação retirou do professor o seu status de ser o detentor de dados e informações e praticamente referência única para os alunos. O principal papel do professor deixou de ser o de transmissor de informações para ser mediador, organizador, analista, facilitador e orientador do conhecimento e da aprendizagem. Essa mudança de modelo educacional impactou de forma decisiva no fazer do professor e contribui para o mal-estar já referido.

Como ponto de reflexão, constatamos que no Brasil há razões adicionais para esse mal-estar (também relacionado com os baixos salários e a complexidade da função), entre as quais destaco a carreira e a formação deficitária. Por todas essas razões há pouca atratividade pela  carreira. Reflexo disso é a falta de professores, como aponta recentes estudos e pesquisas realizadas pelo MEC.

Outra questão que se coloca: por que os estudantes não buscam a carreira de professor? Pesquisa conjunta da Fundação Victor Civita e Fundação Carlos Chagas (2009) investigou jovens concluintes do ensino médio, prestes a decidir que carreira seguir. Os resultados assustam: apenas 2% dos entrevistados admitiram o desejo de ser professor. Destes a taxa cai para perto de zero quando considerados somente os que estudam em escolas particulares. Essa pesquisa apontou ainda que um terço deles até pensaram em ser professores, mas desistiram em razão do baixo reconhecimento, dos baixos salários e da rotina desgastante.

Outro, e não menos grave problema, diz respeito ao preparo do professor para a docência. As carências nos cursos de formação constituem hoje um dos maiores obstáculos a uma qualificada educação. O problema é tão sério que  o Ex-Ministro da Educação, Henrique Paim, afirmou que a formação de professores é o principal gargalo que nós temos hoje para avançar na qualidade da educação.

Muitos professores exercem a docência sem formação específica ou preparo profissional adequado. Há nos cursos de licenciatura um grande descompasso entre o tempo despendido com questões ideológicas e o tempo dispensado à formação técnica. Por outro lado, a formação técnica ainda está pautada em modelos educacionais já ultrapassados.

Assim, muitos chegam à sala de aula inseguros em relação ao quê e como ensinar, sem domínio das técnicas necessárias na contemporaneidade e as ferramentas capazes de contribuir para uma boa aprendizagem. Muitos dos que ingressam na docência têm dificuldades com o idioma, deficiências em leitura, e compreensão de textos, como atesta o baixo desempenho das avaliações.

Dito isso, lembro que no mês de outubro costumamos homenagear os professores com presentes, discursos e poesias. No entanto, sabemos que eles precisam muito mais que isso.

O país não avançará em termos de desenvolvimento econômico e social se não investir na qualidade da educação, e isso depende diretamente de investimento nas condições de trabalho, na carreira e na melhoria da formação desses profissionais. Esta é a hora do professor. Mais que momento de homenagens, o momento é de ação.

Para encerrar minha reflexão, lembro de uma afirmação recente de um dos maiores líderes mundiais da atualidade, Borack Obama. De forma enfática nos disse que “todos os dispositivos sofisticados de wifi do mundo não vão fazer a diferença se não tivermos grandes professores em sala de aula. E não há dúvida de que só teremos esses grandes professores quando, de fato, melhorarmos suas perspectivas profissionais”.

Por fim, acho que não há mais dúvidas de que o  país não avançará em termos de desenvolvimento econômico e social se não investir na qualidade da educação. Ouso afirmar e reforçar que isso depende principalmente e  diretamente de investimento na melhoria da carreira, das condições de trabalho e na formação dos professores.

Precisamos de uma vez por todas entender que esta é a hora do professor. Mais que momento de homenagens, o momento é de ação. Que venham muitas homenagens, mas acompanhadas de investimentos, estratégias e projetos consistentes que mudem e valorizem, de forma significativa, a honrosa profissão “Professor” no nosso querido Brasil.